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Mercado de Automóveis usados sofrem com falta de peças de reposição.

Caçadores da peça perdida



RIO – A cena é mais comum do que se imagina: o camarada compra um carro 0km para evitar dores de cabeça. Meses depois, dá um “totozinho” na garagem e danifica o para-choque. Ao tentar comprar a reposição, descobre-se em meio a uma novela interminável — no enredo, a falta de peças, seja em concessionárias ou oficinas independentes.


Personagem forçado de uma dessas tramas enfadonhas, o empresário Cezar Augusto Lopes sofreu os efeitos do chamado “aftermarket desabastecido” quando levou seu Ford Fusion novinho, ano 2012, a uma autorizada da marca no fim do ano passado. O carro, que é importado do México e tinha menos de 700km rodados, apresentou dois problemas: a lente da luz da placa derreteu e a trava do cinto de segurança parou de funcionar.

— Na loja, em três ocasiões diferentes, avisaram que os itens chegariam em até cinco dias úteis — explica Cezar. Por fim, a lente plástica levou 60 dias e o cinto, 40.

— Cheguei a procurar o cinto em um ferro velho, mas não o achei — completa o empresário, que trabalha com o carro.

Engana-se quem pensa que essas histórias só têm personagens estrangeiros. Hoje, até carros nacionais bem comuns estão sujeitos à falta de peças. João Paulo Antunes, dono de um Renault Duster, foi pego de surpresa quando uma concessionária da marca informou que não tinha em estoque as peças para a reparação do utilitário feito no Paraná. Foram 60 dias esperando por um braço da suspensão.

— A concessionária jogava a culpa na Renault, alegando que a fábrica não atendia aos pedidos das peças — conta João Paulo.

Parte do problema de desabastecimento se deve a um momento do mercado. Entre maio e dezembro do ano passado, as vendas de carros novos foram estimuladas pela redução na cobrança do IPI. Assim, tanto os fabricantes de automóveis quanto os fornecedores de peças à indústria concentraram esforços na produção de um estoque de carros 0km, que durasse por mais algumas semanas. Como resultado, menos componentes foram para a reposição.

— Em janeiro, mês tradicionalmente fraco, a rede já somava 180 mil veículos em estoque. Isso é muita coisa— calcula Francisco Satkunas, diretor da Sociedade de Engenheiros da 

Mobilidade (a SAE Brasil).
Os mecânicos sentem o impacto. De acordo com Avelino de Oliveira Brandão Neto, dono de uma oficina em Vassouras, os pedidos de peças demoravam, em média, sete dias. 

Agora, é preciso esperar pelo menos 15 dias.
Elis Caetano, dona da oficina de lanternagem WR, em Botafogo, faz coro:

— Há dois meses espero uma fechadura do porta-malas da VW SpaceFox — reclama.
O problema não está restrito aos modelos produzidos no Mercosul. Na oficina Sotel, de Botafogo, o proprietário Roberto Ameijeira tem dificuldades com os importados:

— Estes sim dão dor de cabeça — desabafa.
O Sindipeças, representante da indústria de autopeças, defende-se. Alega que o problema está mais ligado a erros de logística do que de fabricação.

— Falta de peça hoje é um problema de planejamento. Não há essa lacuna na produção — garante Antônio Carlos Bento, presidente da entidade.
Ainda segundo Bento, os fabricantes estão preparados para entregar as peças em todos os municípios do país em, no máximo, 24 horas.

Lataria é vilã

As peças de lataria são as vilãs dessa história. Por questões de patente, essas partes geralmente são produzidas apenas pelos próprios fabricantes. Esse fator, aliado às altas nas vendas e à linha de montagem trabalhando no limite, gera estoques vazios e filas de espera.

O aposentado Ranoldo Rodrigues dos Santos que o diga. Seu Hyundai Elantra 2012 esperou pelo para-choque dianteiro por mais de 60 dias.

— Sinto-me desrespeitado — reclama.
Uma solução é acionar a Justiça. De acordo com a lei, os fabricantes têm um prazo de 30 dias para consertar o veículo. E, no caso de o atraso ocorrer em oficina credenciada a uma seguradora, esta também poderá ser acionada.

Na hora de levar o carro à autorizada é bom ficar atento. Há casos em que a loja recusa o veículo já prevendo a falta do componente.

— Nesse caso é importante exigir um comprovante da autorizada com o dia em que esteve lá — aconselha Carlos Edison Monteiro, diretor jurídico do Procon-RJ.

Com o prazo de 30 dias superado, o Procon é uma opção. A entidade marcará uma audiência conciliatória em menos de um mês.

Enquanto o automóvel está parado, o proprietário pode reunir notas com despesas de táxi 
e outros gastos com locomoção para pedir um reembolso à empresa responsável (caso o conserto exceda os 30 dias). São medidas que não eliminam o problema, mas dão algum conforto a quem está em busca da peça perdida.

Marcelo Cosentino

Cláudio Duarte

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